Guia de bolso: 5 árvores nativas perfeitas para plantar na calçada

Sabe aquele sol escaldante que bate na frente de casa e faz a gente sonhar com uma sombra fresquinha? Pois é! Eu passo boa parte do meu tempo livre produzindo mudas de plantas nativas aqui na varanda do meu apartamento, e a pergunta que eu mais recebo de quem quer fazer o mesmo é: “Nic, o que plantar na calçada?”.

Todo mundo quer uma rua mais fresca, mas o maior medo é sempre o mesmo: raízes que destroem o encanamento ou quebram o cimento. Mas calma, a nossa biodiversidade tem a solução! Hoje eu vou te apresentar árvores nativas de pequeno porte que vão transformar a frente da sua casa num verdadeiro oásis urbano.

Árvores que não quebram calçada: o segredo do porte adequado

O grande truque para a arborização urbana dar certo é o planejamento. Se a gente planta uma árvore que na natureza chega a 30 metros de altura num canteirinho de meio metro, é claro que a raiz vai procurar espaço!

Para a calçada (especialmente se tiver fiação elétrica em cima), a gente precisa de espécies de pequeno a médio porte, com raízes pivotantes (que crescem para baixo, como uma cenoura, e não para os lados). Assim, a gente garante sombra, beleza, moradia para os passarinhos e calçadas intactas.

A lista de ouro: 5 nativas para a sua calçada

Aqui estão as minhas queridinhas. Usei os dados do mestre Harri Lorenzi para garantir que o porte delas é seguro para a sua rua!

  • Quaresmeira (Tibouchina granulosa): um clássico absoluto! Ela não fica muito grande (geralmente entre 8 e 12 metros) e tem raízes super comportadas. No outono, ela dá um show com flores roxas ou rosas que parecem de pelúcia.
  • Ipê-roxo-de-bola (Handroanthus impetiginosus): quem não ama um ipê? O roxo-de-bola é perfeito porque o seu crescimento urbano costuma ser moderado. A floração é daquelas que param o trânsito (literalmente!) de tão linda.
  • Escova-de-garrafa nativa ou esponjinha (Calliandra brevipes): muita gente conhece a escova-de-garrafa australiana, mas nós temos a nossa versão nativa maravilhosa! É quase um arbusto grande, perfeito para calçadas estreitas e com fiação. Beija-flores fazem fila para visitar as flores vermelhas e felpudas!
  • Cereja-do-rio-grande (Eugenia involucrata): uma nativa elegantérrima e de pequeno a médio porte (5 a 8 metros). Ela tem um tronco lisinho que descasca formando desenhos maravilhosos e raízes muito seguras. Na primavera dá flores brancas e, depois, cerejinhas doces que você e os passarinhos vão disputar!
  • Pitangueira (Eugenia uniflora): eu não seria a Nic se não colocasse uma preciosidade dessas na lista, né? A pitangueira tem raízes profundas que não quebram o cimento, aceita poda super bem e ainda te presenteia com frutas deliciosas direto no portão de casa.

(Dica: se você quer conhecer essas e outras centenas de plantas com fotos incríveis e dados confiáveis, eu recomendo de olhos fechados a coleção Árvores Brasileiras, do Harri Lorenzi. É a minha “bíblia” na hora de escolher as sementes! Comprando por esse link, você apoia o nosso trabalho aqui na Terra na Tela).

O cuidado com o Ipê Mirim

Preciso dar um alerta de utilidade pública botânica! Muita gente procura o famoso ipê mirim (Tecoma stans) para plantar na calçada porque ele é pequeno e dá flores amarelas lindas.

Mas atenção: ele é uma espécie exótica e altamente invasora no Brasil! Ele se espalha descontroladamente e sufoca as nossas plantas locais. Como a gente quer regenerar nossos biomas, o ideal é sempre escolher as nossas joias 100% brasileiras.

Alerta: por que você não deve plantar o Ipê-Rosa de El Salvador

Além do Ipê Anão extremamente problemático, também existe um “impostor” exótico sendo vendido e plantado por aí que está causando um estrago enorme na nossa arborização urbana: o ipê-rosa de El Salvador (Handroanthus pentaphylla).

O Ipê Rosa que deveria ser proibido no Brasil: como identificar essa espécie exótica?

Diferente dos nossos ipês nativos guerreiros, que colorem o Cerrado e a Mata Atlântica, o Ipê-rosa de El Salvador (Tabebuia rosea ou Handroanthus pentaphyllus) vem de fora e tem algumas características bem marcantes que ajudam a gente a não cair em cilada na hora de comprar uma muda.

Preste atenção nestes detalhes:

  • As folhas não caem totalmente: os nossos ipês nativos costumam perder todas as folhas na época da floração, ficando apenas com aquele espetáculo de flores. O ipê de El Salvador, não; ele mistura flores com folhas verdes.
  • Madeira e casca: ele tem uma madeira muito mais mole e uma casca bem mais clara do que os nossos ipês nativos.

A doença incurável que ameaça a nossa biodiversidade

O grande problema de plantar essa espécie exótica não é só uma questão de preferência. O ipê-rosa de El Salvador está sendo dizimado no Brasil por conta de uma doença gravíssima e, infelizmente, incurável.

A planta começa a desenvolver tumores (conhecidos como galhas) no caule e nos galhos. Essas galhas funcionam como uma rolha, bloqueando a circulação de seiva da árvore. O resultado é um declínio progressivo e muito triste: a planta vai atrofiando, secando e acaba morrendo jovem, reduzindo sua vida útil para apenas 15 a 20 anos.

E o perigo maior é que essa doença pode se espalhar! Especialistas em botânica e ecologia estão soando o alarme para o risco de contaminação dos nossos ipês nativos.

O que fazer? O manejo correto e difícil

Se você descobrir que tem uma árvore doente dessas perto de você, a vontade que dá é pegar a tesoura e podar os galhos com tumor, né? Mas a ciência já avisou: a poda é ineficaz.

A infecção dessa doença é sistêmica, ou seja, está correndo “no sangue” da árvore. Se você cortar um galho, novos ramos doentes vão surgir. A recomendação atual, por mais dura que seja, é a erradicação. É preciso fazer a remoção total da árvore e, muito importante, a queima dos ramos afetados para conter a disseminação do problema.

A situação é tão séria que várias cidades brasileiras, como Campo Grande (MS), já proibiram o plantio dessa espécie e estão recomendando a sua remoção imediata para proteger a arborização nativa.

Informação é a nossa melhor ferramenta

Para entender o tamanho desse problema e ver como esses tumores afetam a árvore na prática, eu recomendo demais o trabalho do botânico e paisagista Ricardo Cardim. Ele fez registros impressionantes sobre o Ipê exótico que valem a pena ser assistidos e compartilhados. 

Vou deixar mais algumas referências para quem quiser se aprofundar no assunto:

Na hora de arborizar a sua calçada, não arrisque: escolha sempre plantas nativas da sua região. Temos opções maravilhosas como o Ipê-roxo-de-bola (Handroanthus impetiginosus) ou a Quaresmeira (Pleroma granulosum), que são lindas, seguras e ajudam a regenerar a nossa casa comum.

Tudo pronto para plantar e proteger nossos biomas? Qual dessas belezuras você vai escolher para sombrear a sua calçada? Depois me manda uma foto da muda na terra, vou amar ver!

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