Se você tem aquela vibe de selva urbana em casa (a famosa urban jungle), provavelmente tem vasos espalhados pela sala, pendurados no teto e tomando conta da varanda. Eu sei, é uma delícia conviver com o verde!
Mas hoje eu quero te convidar para uma investigação digna de detetive botânico. Pensa comigo: se a sua Jiboia ou a sua Costela-de-adão estão bonitinhas e contidas dentro de um vaso de cerâmica no oitavo andar de um prédio, como é que espécies como elas vão parar lá no meio da Mata Atlântica, sufocando as nossas árvores nativas? Como ocorre essa “fuga”?
A resposta para esse mistério está nas pequenas ações do nosso dia a dia (e na ajudinha de alguns animais). Prepara o café que a gente vai descobrir como as nossas plantas de apartamento viram as invasoras da floresta!
O mito do “mato é mato” e o descarte de podas
A principal rota de fuga das plantas ornamentais exóticas para a natureza é, acredite se quiser, a vassoura e a tesoura de poda.
Existe um mito muito forte de que todo resto de planta é só “matéria orgânica” inofensiva. Quando a nossa Jiboia cresce demais e arrasta no chão da sala, o que a gente faz? Corta os galhos. E para onde vão esses galhos?
Muitas vezes, a pessoa joga no terreno baldio da esquina, na beira da estrada ou na beirada daquela matinha do bairro, achando que está fazendo um favor para a terra ao “adubar” o solo.
O problema é que muitas dessas plantas de apartamento (como a Costela-de-adão e a própria Jiboia) têm uma capacidade de enraizamento absurda! Aquele pedaço de caule cortado não morre e não vira adubo. Ele encosta na terra úmida, solta raízes novas, se agarra na primeira árvore nativa que encontrar e começa a subir. Em poucos anos, o que era um galhinho descartado vira um monstro verde que bloqueia a luz do sol e mata a árvore hospedeira sufocada.
O passarinho semeador (e a carona voadora)
Se o descarte incorreto de plantas exóticas explica a fuga das trepadeiras invasoras, como explicar o aparecimento de arbustos gringos no meio de reservas ambientais protegidas? Aí entra o nosso amado e inocente passarinho.
Já ouviu falar de espécies como a Cheflera e da Murta? Elas dão frutinhos vermelhos, laranjas ou roxos super atrativos. Um Sabiá-laranjeira ou um Bem-te-vi (os nossos clientes “generalistas” do buffet livre) vê aquele fruto na calçada da sua casa ou na varanda do seu apartamento e come.
Algumas horas depois, esse mesmo passarinho voa para a floresta para dormir ou procurar mais comida. Lá do alto do galho de um Jequitibá, ele faz cocô. E adivinha o que sai no cocô? A semente intacta da planta exótica turbinada com uma dose de adubo natural, pronta para brotar no meio da mata e competir com as nossas mudinhas nativas!
O vento e as chuvas
A terceira rota de fuga é a carona nos elementos da natureza. Sabe aquela planta linda que você colocou no canteiro da calçada ou que dá sementes com “pelinhas” voadoras, como o Ipê-anão-de-jardim (o amarelinho exótico)?
O vento bate, leva milhares dessas sementes embora, e elas caem em bueiros ou terrenos vazios. A chuva vem e arrasta essas sementes pela enxurrada até os rios e córregos.
Como eu passo muito tempo plantando mudas na mata ciliar do rio aqui perto de casa, eu vejo isso o tempo todo: as margens dos rios urbanos são os primeiros lugares a serem dominados por essas invasoras que vieram boiando pelas galerias pluviais da cidade.
Como evitar que as plantas exóticas da sala invadam a mata?
Descobrir tudo isso assusta um pouco, né? Mas a solução é super simples e faz parte da jardinagem ecológica. Olha só o que eu recomendo para garantir que as exóticas fiquem só dentro de casa:
- Descarte consciente (A regra do sol)
Podou a sua Espada-de-são-jorge, Jiboia ou Costela-de-adão? NUNCA jogue os pedaços vivos na rua, no lixo comum úmido ou em terrenos! Coloque as folhas e caules picados espalhados no chão, no sol forte, por vários dias.
Deixe eles secarem até ficarem esturricados e crocantes. Só depois que a planta estiver completamente morta é que ela pode ir para a sua composteira caseira ou virar cobertura morta (mulching) nos seus vasos.
- Corte as flores exóticas antes de virarem semente
Se você tem plantas exóticas que dão frutos ou sementes voadoras, corte a flor assim que ela murchar, antes que o passarinho coma ou o vento espalhe.
- Aposte nas nativas
A melhor forma de não espalhar invasoras é… não ter invasoras! Troque as plantas exóticas invasoras da sua varanda ou do seu jardim por espécies do nosso bioma. Se um passarinho comer o fruto da sua Pitangueira e fizer cocô na floresta, ele estará ajudando a reflorestar o Brasil!
Minha conclusão de quem vive picando galhos
Nos ensinaram que cuidar de plantas era só regar e dar sol, mas a agroecologia nos mostra que também somos responsáveis por todo o ciclo daquele ser vivo e de uma teia complexa de organismos que é afetada com a chegada de plantas estrangeiras. Desde a hora em que o compramos até a hora em que fazemos a poda.
Saber disso não é motivo para pânico ou para jogar os seus vasos no lixo (aliás, não faça isso!). É um convite para sermos guardiões mais conscientes da nossa biodiversidade. A nossa casa pode ser uma selva, mas a floresta de verdade lá fora precisa da nossa ajuda para continuar sendo lar dos animais que evoluíram nela.
Bora secar essas podas das exóticas no sol e plantar uma nativa hoje?
Perguntas frequentes (FAQ)
Secar as podas no sol (a Regra do Sol) não atrai mosquitos da dengue?
De jeito nenhum! A planta que você corta e deixa esticada no sol quente vai desidratar e secar muito rápido, virando praticamente uma palha. O mosquito da dengue só procura água limpa, parada e acumulada, ele não se interessa por folhas secas no sol!
Posso jogar as podas invasoras no lixo orgânico da prefeitura?
Se você já aplicou a Regra do Sol e a planta está esturricada e 100% morta, sim. Mas nunca jogue os pedaços vivos, verdes e fresquinhos no lixo, pois eles podem acabar brotando no aterro sanitário ou durante o transporte.
Sementes de plantas nativas também voam e invadem lugares?
As sementes de árvores nativas também voam com o vento, mas elas não “invadem” no sentido negativo, porque elas estão dentro do seu próprio bioma! Nascendo por lá, elas sofrem o controle natural do ambiente (são devoradas por insetos locais ou competem de igual para igual). O perigo letal é só com as sementes gringas que não têm predadores por aqui!


