Hoje a gente vai entrar num papo que mexe muito com a forma como a gente enxerga a natureza. Se você tem uma hortinha, um jardim ou até uns vasinhos na varanda (como eu tenho no meu mini viveiro de apartamento), com certeza já usou ou ouviu a palavra “praga”. Afinal, qual é diferença entre praga e exótica invasora?
“Nossa, deu praga na minha Couve!” ou “Esse matinho é uma praga, não para de crescer!”.
A gente fala isso no automático, né? Mas na biologia e na ecologia profunda, o uso dessa palavra carrega uma injustiça gigantesca. Hoje, eu quero te convidar a desconstruir o termo “praga” e entender por que na educação ambiental a gente prefere (e precisa) usar o termo “invasora” ou “espécie exótica invasora”.
Prepara o chá e vem refletir comigo!
A invenção da “Praga”: um conceito puramente humano
Vamos combinar uma coisa logo de cara: a natureza não tem pragas. O conceito de praga não existe na ecologia de uma floresta equilibrada.
A palavra “praga” foi inventada pelo ser humano e tem um sentido puramente econômico e agrícola. Nós chamamos de praga qualquer ser vivo (seja um inseto, um fungo ou uma planta) que concorre com a gente pelos recursos que nós queremos explorar.
Pensa comigo: se uma Lagarta-do-cartucho come uma folha de árvore no meio da Mata Atlântica, ela é apenas uma lagarta fazendo o papel dela na teia da vida (e provavelmente vai virar almoço de um passarinho logo em seguida). Mas se essa mesma lagarta resolve comer a folha do milho numa plantação gigante que um fazendeiro quer vender… boom! Ela vira uma “praga” que precisa ser exterminada com veneno.
O mesmo vale para as plantas. Aquela plantinha espontânea que nasce no meio da calçada ou da horta (que muita gente chama de “mato” ou “erva-daninha”) não é uma praga. Ela é só a natureza tentando cobrir um solo que a gente deixou nu.
Chamar um ser vivo de praga é colocar a culpa nele por estar tentando sobreviver num ambiente que nós mesmos desequilibramos (geralmente plantando monoculturas gigantescas de uma coisa só).
Por que o termo “Invasora” é ecologicamente correto?
Se a lagarta não é praga e o matinho não é praga, como a gente chama aquelas plantas (ou animais) que realmente estão destruindo os nossos ecossistemas?
Aí entra o termo que a gente já destrinchou aqui no Terra na Tela: Invasora (ou Espécie Exótica Invasora).
Enquanto “praga” é uma consequência das monoculturas e um julgamento de valor humano sobre o que nos dá prejuízo financeiro, “invasora” é uma constatação ecológica e científica.
O termo invasora descreve um comportamento específico que ocorre quando um ser vivo é tirado do seu ambiente original (onde ele vivia em equilíbrio) e colocado em um ambiente novo (onde ele não tem predadores). Lembra da nossa analogia da “visita folgada” na festa?
- A Costela-de-adão: Não é uma praga, é uma planta maravilhosa do México. Mas quando a gente planta essa espécie solta na Mata Atlântica brasileira, ela se torna uma invasora, porque sufoca as árvores nativas.
- O Javali: Não é uma praga (na Europa e na Ásia, ele faz parte da floresta). Mas aqui no Brasil, como foi trazido pelo ser humano e solto na natureza sem ter quem o cace, ele virou uma espécie invasora que destrói nascentes e come os ovos das nossas aves que fazem ninho no chão.
Tirando a culpa da natureza e assumindo a nossa
A grande sacada de trocar a palavra “praga” por “invasora” é que a gente muda completamente o vilão da história.
Quando eu digo que o meu jardim “pegou praga”, parece que a natureza está me atacando, como se os insetos fossem monstros do mal querendo destruir a minha horta. Isso justifica, na cabeça de muita gente, o uso de agrotóxicos pesados.
Mas quando eu entendo o conceito de “invasão biológica”, eu percebo que o desequilíbrio é uma consequência das ações humanas. Fomos nós (através da colonização, do comércio global desenfreado e da destruição das matas originais) que tiramos as plantas e os animais dos seus lares e os espalhamos pelo mundo como meras mercadorias.
As plantas invasoras (como a Leucena, o Pinus e a Espada-de-são-jorge na terra) não são malvadas. Elas estão apenas seguindo o instinto básico de qualquer ser vivo: tentar sobreviver num lugar onde ninguém ensinou a elas qual é o limite.
Minha conclusão de quem vive sujando as mãos de terra
Na agroecologia, a gente aprende que a presença de muitos insetos ou plantas espontâneas (as falsas “pragas”) é apenas a terra nos dando um recado: “Ei, tem algo desequilibrado por aqui! O solo tá fraco, ou tá faltando diversidade!”.
Quando a gente para de lutar contra a natureza usando venenos e começa a trabalhar com ela (plantando diversidade, respeitando nossos biomas e escolhendo as plantas nativas certas), o conceito de praga simplesmente desaparece do quintal. Ao invés de inimigos, podemos olhar para esses seres como mensageiros da terra, que nos mostram quando há um desequilíbrio (geralmente causado por nós mesmos).
Se a linguagem molda o jeito que a gente vê o mundo, que tal a gente aposentar a palavra “praga” e começar a olhar para as nossas plantinhas com mais justiça e responsabilidade ecológica?
Perguntas frequentes (FAQ)
Se não é praga, o que são os pulgões na minha couve?
Os pulgões são insetos se alimentando! Quando aparecem em muita quantidade, eles são “mensageiros” avisando que a sua couve pode estar fraca (falta de nutrientes na terra) ou que faltam predadores naturais (como as joaninhas) no seu quintal. Plantas saudáveis não são atacadas.
É errado usar inseticida natural para controlar esses insetos?
Não é errado proteger sua horta e suas plantinhas. Porém, receitas naturais (como o óleo de neem ou o sabão de coco) devem ser usadas apenas como um “band-aid”, uma solução temporária.
A cura real a longo prazo é cuidar da terra e plantar diversidade (flores e ervas aromáticas) para atrair predadores que farão esse controle de forma automática para você!
Todo “mato” que nasce sozinho deve ficar no canteiro?
Nem sempre! Às vezes, o “mato” que nasce espontaneamente é, na verdade, uma planta exótica invasora que veio trazida pelo vento. A regra de ouro é observar: se a plantinha estiver dominando e sufocando as mudas que você plantou, pode ser necessário retirá-la. Mas se for uma nativa rasteira, deixe ali curando e protegendo o solo.


