Quem nunca estava no ônibus, no carro ou caminhando pela calçada e, ao ver uma mancha amarela brilhando de longe no meio do cinza da cidade, soltou um: “olha lá, um ipê amarelo!”.
A floração do ipê é um dos eventos mais esperados do nosso ano, quase um réveillon da natureza. Mas eu preciso te contar um segredo botânico que vai mudar o seu jeito de olhar para as ruas: nem toda flor amarela é um ipê!
Hoje, na nossa seção de Plantas Nativas do Brasil, eu vou te ensinar alguns truques simples para você bater o olho e identificar a verdadeira árvore ipê amarelo, sem se confundir com as “impostoras” (que também são lindas, mas são outras espécies).
Nem toda flor amarela é ipê
Entre agosto e setembro, várias árvores brasileiras decidem explodir em tons de amarelo. É muito comum a gente confundir o ipê amarelo com árvores como a sibipiruna (Caesalpinia peltophoroides), a canafístula (Peltophorum dubium) ou os diversos tipos de cássias (como a cássia-imperial).
Todas elas dão flores amarelas maravilhosas em cachos, mas o comportamento delas e o formato da árvore são bem diferentes da nossa estrela principal. Para reconhecer os verdadeiros ipês, a gente precisa olhar para os detalhes que a natureza desenhou.
Como identificar um ipê amarelo de longe (e de perto)
Aqui na varanda, eu já perdi a conta de quantas sementinhas aladas de ipê eu tentei germinar. Convivendo com eles, a gente aprende a ler os sinais. Anota aí o guia definitivo para não errar mais:
1. O truque das folhas palmadas
Se você chegar perto da árvore quando ela estiver com folhas, observe o formato delas. As folhas do ipê amarelo são compostas e palmadas. O que isso significa? Elas lembram a palma da nossa mão! De um único ponto (o “nó”), saem de 5 a 7 folhinhas menores (os folíolos), exatamente como os nossos dedos abertos.
Se a folha parecer uma pena cheia de folhinhas minúsculas de cada lado (como uma samambaia), pode ter certeza: não é ipê, provavelmente é uma sibipiruna ou um guapuruvu.
2. O espetáculo da árvore pelada
Essa é a dica de ouro para identificar de longe. Vários ipês amarelos são árvores caducifólias (ou decíduas), e isso significa que, para concentrar toda a energia na floração, eles perdem praticamente todas as suas folhas.
Quando o ipê amarelo floresce, você geralmente vai ver uma copa inteirinha amarela, sem pontinhos verdes no meio. Outras árvores de flores amarelas costumam misturar as flores com a folhagem verde.
3. A casca rugosa e o tronco desenhado
A casca é a impressão digital da árvore. Os ipês amarelos (especialmente os do cerrado, como o Handroanthus ochraceus) possuem uma casca rugosa, muito grossa e cheia de sulcos e fissuras profundas. É uma casca rústica, feita para resistir ao sol forte e às secas. Se o tronco for muito lisinho e claro, desconfie.
A ciência por trás: existem vários tipos de ipê amarelo!
Se você achava que “ipê amarelo” era uma coisa só, prepare-se para a magia da nossa biodiversidade: existem dezenas de espécies diferentes!
Eles pertenciam ao gênero Tabebuia, mas os cientistas descobriram que a maioria dos ipês de flores amarelas (e madeiras mais duras) merecia um grupo próprio, e eles foram reclassificados para o gênero Handroanthus.
Nós temos o ipê-amarelo-da-mata (Handroanthus albus), o ipê-amarelo-do-cerrado (Handroanthus ochraceus), o ipê-amarelo-cascudo (Handroanthus chrysotrichus), entre muitos outros. Cada um adaptado a um bioma, a uma altitude e a um tipo de solo diferente.
(Dica: se você quiser se aprofundar e aprender a diferenciar cientificamente cada um desses tipos de ipê, a minha maior recomendação é consultar a coleção de guias do Harri Lorenzi. O Instituto Plantarum publicou a obra “Árvores Brasileiras”, que traz fotos perfeitas das folhas palmadas, da casca rugosa e das flores de todos os ipês.)
Bora observar? Da próxima vez que você vir uma copa amarela na sua rua, chegue perto e procure as “folhas de mãozinhas” ou repare na casca rugosa. Depois volta aqui e me conta se você encontrou um ipê verdadeiro ou uma sibipiruna disfarçada!
Fontes consultadas e links úteis:
- Lorenzi, H. (2002). Árvores Brasileiras: Manual de Identificação e Cultivo de Plantas Arbóreas Nativas do Brasil. Instituto Plantarum.
- Reclassificação botânica dos ipês do gênero Tabebuia para Handroanthus (Estudos taxonômicos e bases botânicas da Flora do Brasil). Link da Flora do Brasil: http://floradobrasil.jbrj.gov.br/
- dos Santos, Sidinei Rodrigues (2017). A atual classificação do antigo gênero Tabebuia (Bignoniaceae), sob o ponto de vista da anatomia da madeira
- Herbário Flora do Brasil





















